Lapões

Na década de 1960 alguns lapões começaram a adquirir motas de neve. Estas tornavam o pastoreio de rebanhos mais fácil e permitiam a um homem fazer o trabalho de vários pastores. A primeira Mota foi introduzida na região 1962, mas em 1970 já havia 70, quer na posse dos lapões quer de outras populações que habitavam a região árctica. A utilização das motas de neve diminuiu o valor social dos pastores que usavam esquis, pois estes começaram a ser vistos como algo “antiquado”. Segundo Pelto (1973), em 1967 já só havia quatro famílias que usavam o trenó puxado por renas, todas as outras haviam comprado motas de neve. As poucas famílias que não possuíam motas de neve sentiam-se numa posição económica e social inferior. A principal consequência da adopção das motas de neve como meio de transporte foi a grande dependência face ao exterior. Motas, peças e gasolina, tudo vinha do exterior. A tecnologia tradicional foi substituída pela tecnologia necessária às motas de neve. O dinheiro tornou-se indispensável na sociedade dos lapões, pois sem ele não podiam adquirir as motas e todos os produtos necessários ao seu funcionamento. Isso fez com que os homens tivessem de encontrar trabalho assalariado duradouro. Antes já havia trabalho assalariado, mas era apenas ocasional.

Tudo isto teria valido a pena se produtividade dos rebanhos tivesse aumentado proporcionalmente aos novos investimentos em “inovação” tecnológica, mas não foi isso que aconteceu. As motas de neve contribuirão para a diminuição de renas. Em 1971 o tamanho médio dos rebanhos familiares tinha descido de 50 para 12 renas, tornando a criação de renas uma actividade economicamente inviável por uma questão de economias de escala (não é possível criar rebanhos muito pequenos porque os animais fogem para se juntarem a grupos maiores). O ruído das motas também perturbou a relação harmoniosa que existia em pastores, lapões e as renas. Estas passavam a associar o ruído à perseguição e abate, fugindo prontamente sempre que ouviam as motas aproximarem-se. No fundo, voltaram a temer a presença humana tal como quando eram selvagens. O stress causado pelo ruído dos motores contribuiu também para a diminuição do número de crias sobreviventes.

O que se passou com os lapões da Finlândia é um exemplo de como a mudança cultural pode não ser adaptativa, pois acabou por levar a que grande parte deles abandonasse o seu modo de vida tradicional a troco de um alternativo que se mostrou inviável.

(…) já não é fácil ser-se um criador como antigamente; é preciso um capital financeiro importante para se iniciar na actividade e um capital de conhecimentos que já não tem origem na pequena comunidade (saber de motas por exemplo). A mudança económica e social fez emergir relações de dependência e clientelagem, criando desigualdades sociais até aí inexistentes e com tendência para se acentuarem. – Luís Batalha, Antropologia Uma Perspectiva Holística

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Resistência à Mudança

A grande maioria das pessoas é relutante em relação à inovação e prefere a segurança do que já conhece há muitas gerações. Os britânicos, com a sua condução pela esquerda e o seu sistema de peso e medidas exclusivo, são um bom exemplo de resistência à mudança. – Luís Batalha, Antropologia Uma Perspectiva Holística